domingo, 14 de maio de 2023

Visão do futuro


  

A Luísa tem o hábito de se acercar à minha presença e dizer:

“- Pai, eu adoro-te!!!”

É claro que eu fico extasiado. Quem não gosta que a sua filha adorada lhe diga que o adora?

“- Eu também te adoro, minha linda!”

E baba escorre por entre os longos e esbeltos pelos faciais, cauda balança de um lado para o outro, pintainhos cantam uma música primaveril e o sol abre sorridente e começa a aquecer os nossos corações.


Até que comecei a ficar farto. Lancei-me na procura do porquê desta aguardada confissão vinda da minha Luísa.

Adoro-a, porque ela é perfeitinha em tudo, ela esforça-se no estudo, na piscina, raramente levanta a voz. Eu tenho um exemplo de filha! 

Ela tem um pai que não é assim tão adorável. Aliás, como todas as pessoas, de mais ou menos bom senso, que estejam a ler estas crónicas são capazes de atestar. Sou uma rica de uma prenda, segundo a minha tia Cândida! A partir daí são inúmeros os defeitos. Sou um humano não muito bem humorado. Olho a presença de estranhos de um modo desconfiado, contrariando a minha esposa. Separo as pessoas em caixinhas e tenho um juízo muito rápido, em quase tudo o que me interessa. Tenho a anormalidade de ter dois corações, mas isso até é o que menos interessa. Resumindo eu sei que não sou flor que se cheire.

E ela continua a dizer “- Pai, adoro-te!!”


Iniciei o plano “Visão do futuro!!!” Neste plano precisava de lhe mostrar que embora a adore, ela não me deve adorar. Nada como lhe fazer ver o futuro hoje. 


Então ela aproximou-se de mim e voltou a repetir a mesma frase:

Luísa “- Pai, adoro-te!!!”

Dei-lhe um abraço e disse-lhe: 

Vasco “- Oh filha eu também te adoro, mas…”

Intrigada, com a sobrancelha em riste:

L- “- Mas???”

V “- Aos 16 anos vais-me detestar, por vezes até odiar!”

Tenho que dizer que fui um pouco bruto, mas consegui o efeito pretendido, ela ficou com um ar de perplexidade.

L “- Mas, mas… Como sabes? Eu vou-te adorar para sempre!!”

V “- Não vais, não!!! Desculpa, mas vais-me detestar!”

L “- Sabes lá tu, eu não tenho 16!!”

V “- Todas as pessoas que têm 16 detestam os pais. Pergunta à tua mãe?”

Nunca passei essa fase, provavelmente achava que a vida era bastante mais interessante para eu estar a detestar os meu pais, mas conheço casos que detestaram os seus!

L “- Mãe??”

Cristina “- Sim é verdade!!”

Fiquei admirado, a minha querida mulher concordou comigo!!!! 

L “- Mas como?”

V “- É fácil, tu não vais gostar que eu te impeça de sair à noite! Eu não vou gostar das tuas falta de roupa, por isso vou te proibir! E depois não vais gostar quando eu te enviar para o Carmelo de Santa Teresa em Coimbra, para junto da cidade do teu tio!!!”

Ela sorriu, fez-me uma festinha na careca.

L ”- Tá! Isso depois vê-se!!”


Agora, intermitentemente ela chega acerca de mim e diz:

L “- Pai adoro-te!!”

V “- Pois filha, 16 anos…”

Coloca o olhar número 23 e encosta a cabeça no meu ombro.

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