A Luísa tem o hábito de se acercar à minha presença e dizer:
“- Pai, eu adoro-te!!!”
É claro que eu fico extasiado. Quem não gosta que a sua filha adorada lhe diga que o adora?
“- Eu também te adoro, minha linda!”
E baba escorre por entre os longos e esbeltos pelos faciais, cauda balança de um lado para o outro, pintainhos cantam uma música primaveril e o sol abre sorridente e começa a aquecer os nossos corações.
Até que comecei a ficar farto. Lancei-me na procura do porquê desta aguardada confissão vinda da minha Luísa.
Adoro-a, porque ela é perfeitinha em tudo, ela esforça-se no estudo, na piscina, raramente levanta a voz. Eu tenho um exemplo de filha!
Ela tem um pai que não é assim tão adorável. Aliás, como todas as pessoas, de mais ou menos bom senso, que estejam a ler estas crónicas são capazes de atestar. Sou uma rica de uma prenda, segundo a minha tia Cândida! A partir daí são inúmeros os defeitos. Sou um humano não muito bem humorado. Olho a presença de estranhos de um modo desconfiado, contrariando a minha esposa. Separo as pessoas em caixinhas e tenho um juízo muito rápido, em quase tudo o que me interessa. Tenho a anormalidade de ter dois corações, mas isso até é o que menos interessa. Resumindo eu sei que não sou flor que se cheire.
E ela continua a dizer “- Pai, adoro-te!!”
Iniciei o plano “Visão do futuro!!!” Neste plano precisava de lhe mostrar que embora a adore, ela não me deve adorar. Nada como lhe fazer ver o futuro hoje.
Então ela aproximou-se de mim e voltou a repetir a mesma frase:
Luísa “- Pai, adoro-te!!!”
Dei-lhe um abraço e disse-lhe:
Vasco “- Oh filha eu também te adoro, mas…”
Intrigada, com a sobrancelha em riste:
L- “- Mas???”
V “- Aos 16 anos vais-me detestar, por vezes até odiar!”
Tenho que dizer que fui um pouco bruto, mas consegui o efeito pretendido, ela ficou com um ar de perplexidade.
L “- Mas, mas… Como sabes? Eu vou-te adorar para sempre!!”
V “- Não vais, não!!! Desculpa, mas vais-me detestar!”
L “- Sabes lá tu, eu não tenho 16!!”
V “- Todas as pessoas que têm 16 detestam os pais. Pergunta à tua mãe?”
Nunca passei essa fase, provavelmente achava que a vida era bastante mais interessante para eu estar a detestar os meu pais, mas conheço casos que detestaram os seus!
L “- Mãe??”
Cristina “- Sim é verdade!!”
Fiquei admirado, a minha querida mulher concordou comigo!!!!
L “- Mas como?”
V “- É fácil, tu não vais gostar que eu te impeça de sair à noite! Eu não vou gostar das tuas falta de roupa, por isso vou te proibir! E depois não vais gostar quando eu te enviar para o Carmelo de Santa Teresa em Coimbra, para junto da cidade do teu tio!!!”
Ela sorriu, fez-me uma festinha na careca.
L ”- Tá! Isso depois vê-se!!”
Agora, intermitentemente ela chega acerca de mim e diz:
L “- Pai adoro-te!!”
V “- Pois filha, 16 anos…”
Coloca o olhar número 23 e encosta a cabeça no meu ombro.

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