terça-feira, 6 de março de 2018

A Raça da Catraia


Desde Agosto de 2017 eu tenho ido a Inglaterra fazer umas intervenções cirúrgicas únicas. Únicas porquê? Em primeiro lugar porque são feitas em mim. Em segundo, porque uma delas foi tentada pela primeira vez. O que leva a longos períodos de recuperação seguidamente por longos períodos de observação. Tudo isto em Inglaterra.

Desde o início que a minha pequena Luísa nunca gostou de me ver longe de casa, longe de si, sem lhe dar a atenção devida. Ela esteve lá durante uns dias iniciais, já a tínhamos sujeito a uma estadia em Londres, tinha ela meses, portou-se muito bem dentro do seu ninho a andar uma hora e meia de metro como uma menina grande!

Mas depois regressou com os avós maternos até perto de casa, num local onde se fizesse perceber melhor, onde há muito mais sol, onde há mais alegria, a Portugal. E começamo-nos a ver via Skype ou WhatsApp ou outro programa desses que tanto aproximam quanto afastam. Eu não me dou muito bem com esses programas, ou seja, não me costumo exprimir muito bem através de uma câmara. Diga-se de passagem, que nestas situações nunca me apetece exprimir nada, nem com a Luísa, nem com outra pessoa qualquer. É uma espécie de proteção para o mundo, uma forma de me concentrar. É a forma mais fácil de ouvir as palavras dos médicos, de as encaixar... No silêncio, para abrir rumo e espaço para que estas possam entrar e ecoar dentro da minha cabeça, para eu conseguir fazê-las tomar formas que façam sentido no meu ponto de vista. Espero que seja isto que a Luísa faça, pois quando nós nos encontramos no mundo virtual é assim que ela me responde. Diga-se de passagem que não é só nesses momentos que ela o faz, quando sua mãe se vai embora para a Alemanha ou Colômbia ou China... Ela também adota a mesma posição.

E aí começou a sua linha de perguntas, sempre com o mesmo intuito de me trazer para o seu lado. Perguntava inúmeras vezes quando é que eu vinha de Inglaterra, se eu já estaria bom ou melhor. Perguntas que são lógicas e críticas que parecem punhais a entrar no meu peito, claro que eu dizia sempre que faltava pouco, que já estaria um pouco melhor.

No dia 24 de Janeiro a minha menina fez anos. Três para ser claro, eu tive de passar o seu aniversário afastado dela. É claro que muita gente já passou o terceiro aniversário afastado dos seus, mas doeu... Dia 27 de Janeiro já tudo tinha passado, continuava internado em Inglaterra e estava junto à minha esposa, à minha filha, à minha sogra, à minha mãe, ao meu pai, à minha prima Filipa, aos meus dois amigos Jovita e António Correia. A todos estes o meu sincero obrigado. Quando eu, a minha Cristina e a minha Luísa estávamos ir de elevador desde a enfermaria até ao rés do chão a Luísa começa...
"- Ó pai, mas tu queres te vir embora ou não?"
Com pouco tempo para pensar e se calhar um bocado cansado respondi-lhe de forma fria.
"- Não!!! Claro que não!!! Não vês que me estou a tornar melhor e é por isso que aqui estou!!!
- Percebeste?"
Cabeça baixa, toda aquela forma empertigada, quase que me desafiando para um duelo de punhais, tinha sido varrida daquele pequeno corpo. Mas eu não tinha terminado aí, tinha que a fazer perceber, tinha de me assegurar que tinha percebido. Aumentei o volume da voz, um tom mais imponente, mais firme.
"- Percebeste??"
"- Percebi, só não falo!!!"


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