"O Papai é Pop" é o titulo de um livro de Marcos Piangers, o rapaz é um verdadeiro comunicador. Eu já li algumas das suas histórias algumas gosto mais, outras gosto menos. É jornalista de formação, homem fino como ele, um homem louro, um homem alto, um homem de barba farta, um verdadeiro príncipe brasileiro. Homem que sabe viver bem no seu tempo, que mais me faz lembrar o Caco Antibes.
Este personagem fez um texto que me desagrada profundamente.
"Não é uma tragédia"
Tão profundamente que lhe dedico este texto. Dedico este texto, neste blog porque maior parte dos seus comentários são acerca de crianças. Às vezes comenta a maneira como as outras pessoas criam as suas crianças, coisa que a mim pessoalmente me impressiona. Para mim é impossível fazê-lo, porque sei que a maneira como se cria uma criança é e deve ser única. No meio de sorrisos eu costumo dizer que cada casal faz o seu inferno. Agora, se ele é vermelho mais escuro quase preto ou rosa claro quase branco, só depende do mesmo. Todas as pessoas que leem o meu blog sabem que nunca o faço como forma de criticar ninguém. Mas neste caso vou abrir uma exceção, eu estive a pensar demasiado tempo nas palavras que este homem escreveu.
"Não é uma tragédia" parece-me pouco sentido, parece-me uma análise superficial do que é viver e morrer.
Tem tudo para dar bem, tem todas as frases feitas, todas os sentimentos preparados para serem digeridos sem reflexão.
"Essas coisas acontecem
Um jovem adoece no verão
Um senhor é atropelado por um taxi
A biopsia aponta que o tumor é maligno
Essas coisas acontecem todos os dias
E todos os dias saímos de casa
achando que jamais acontecerá connosco
Uma doença leva embora um pai
O médico comunica um exame preocupante
Uma moto atravessa um sinal fechado
Todos os dias isso acontece
E todos os dias os nossos planos são os mesmos
Trabalho almoço trabalho jantar
Não acho que seja uma tragédia
quando essas coisas acontecem com a gente"
Este homem só pode ser um daqueles homens que não dão valor à vida. Nem sequer percebe ou finge não perceber que há pessoas que se preocupam com a vida de outras, que se preocupam se amanhã o jovem que adoeceu no verão está vivo ou não, só porque são Humanos.
Esta coisa de ser Humano traz mais responsabilidades, não se resume a ir comunicar algumas palavras às grandes empresas para deixar todo o mundo em alegria supérflua e conseguir uma maquia prometida.
Se quisermos olhar com um bocado mais de distanciamento:
Podemos ver que as farmacêuticas investem muito do seu capital para evitar que os exames sejam assim tão preocupantes, que haja cura para o tumor... Os senhores que estão por de trás das farmacêuticas já compreenderam o valor capital da tragédia.
Temos ainda a industria dos transportes que investem todos os anos na segurança de todos os ocupantes e de todos os passageiros e que graças à inteligência artificial estamos mais perto de fazer com que aquela moto seja impossibilitada de atravessar no sinal fechado.
Observando a realidade com um olhar mais Humano temos milhares de cientistas a trabalharem no que gostam, a despenderem de milhões de horas a tentarem perceber como é que aquela bactéria evolui ou como é que aquele gene atua sobre nós. Fazendo o mesmo caminho alguns "nerds" com todos os seus uns e zeros, com toda a sua análise matemática, também tentam acabar com a tragédia da morte nas estradas e sim também a estes...
"Essas coisas acontecem todos os dias
E todos os dias saímos de casa
achando que jamais acontecerá connosco"
Hummm, acho que eles não pensam que jamais acontecerá... As probabilidades que venha a acontecer é que devem ser maiores ou menores ;-)
"Dizemos: "Que tragédia! Morreu tão cedo!"
Não acho que seja uma tragédia
Acho que a vida é um amontoado de caos e coincidência
Acho que hoje estamos aqui e amanhã não estamos mais"
Realmente gostava que o Marcos se colocasse no lugar de um pai que perde uma ou duas das suas filhas e depois viesse dizer que não era trágico a sua perda e que elas morreram na horinha delas.
Concordo com as duas ultimas frases só acho que devem ser mais suportadas com mais argumentos, com mais substância, por exemplo poderia ser explicado com o Efeito Borboleta ou a Teoria do Caos, diga-se de passagem que seria um fato digno de se ver.
Nas próximas linhas o Sr. Piangers começa a brincar com todas as pessoas que alguma vez tiveram a infelicidade de abrir o seu texto para o ler, vejamos:
"Uma tragédia é não agradecer esse tempinho que estamos aqui
Uma tragédia é não valorizar a vida em família
Uma tragédia é trocar um sorriso do nosso filho pelo celular
Um passeio em família pelas preocupações do trabalho
Uma tragédia é não abraçar as pessoas hoje
Uma tragédia é passar a vida em branco
Uma tragédia é achar que um dia vamos ser felizes, hoje não
Uma tragédia é achar que não vai acontecer com a gente
E a vida vai ficando para depois "
Agradecer a quem? Aos pais? A Deus?
Como é que se garante que uma vida em família é mais feliz do que uma outra vida qualquer?
Uma vida nunca é vivida em branco, tem que ter várias tonalidades algumas vezes mais claras outras mais escuras. Todas as pessoas têm os seus problemas da vida e os que não têm de vez em quando inventam-nos só para dar mais cor à vida.
As pessoas não se devem julgar com tanta leviandade, não se deve ter tamanhos pressupostos acerca de desconhecidos e depois fazê-los dispersarem pelo mundo. A vida, como o Marcos tinha dito, é um amontoado de caos e coincidência em que todos nós tentamos extrair um pouco de lógica por isso a vida nunca fica para depois porque a vida é isto.
"Um dia eu mudo de emprego
Um dia eu digo que gosto dela
Um dia eu faço essa viagem
Um dia eu vou ser voluntário nesse projeto"
Neste bocadinho o apelo é feito às pessoas que têm falta de amor próprio, ou são definitivamente muito infantis, porque digamos: Porque é que eu não lhe direi que gosto dela? Ou dele, dependendo.
"Acho uma tragédia quando aprendemos
a valorizar o que temos só depois de perder
Acho uma tragédia viver de aparência
Acho uma tragédia ter comprado coisas
achando que isso seria felicidade
Acho uma tragédia trabalhar em algo que você odeia"
Todas estas tristezas são facilmente ultrapassadas, são tristezas que são temporais, de resolução com um bom psicólogo e alguma força de vontade.
"A morte não é uma tragédia
Tragédia é quando a gente não viveu"
A morte é o nosso momento mais infeliz ou mais feliz, mas é sem dúvida um momento eterno, um momento que passando por lá já não há volta atrás. Temos neste momento as tragédias que se desenrolam no meio do mediterrâneo, na Líbia, nos morros do Rio de Janeiro... Eu vivi a tragédia da ida de uma tia e da ida de uma avó que me marcaram profundamente.
Mas a culpa deste texto aparecer aqui não é exclusivamente do Marcos! É também das pessoas que o idolatram, estas pessoas que com certeza não têm muito tempo para pensar, estas pessoas que têm sede de pertencerem a um grupo. Este homem parece um filosofo do café, uma pessoa que fala muito bem sem justificar nada do que diz.
Eu li este texto no meio das minhas cirurgias, por isso este texto andou aqui engasgado durante este tempo todo, desculpem se fui muito aborrecido.
A morte é uma tragédia!!!
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